(Foto: Reprodução/Movimento Passe Livre)

ADVERTÊNCIA DO ME EXPLICA?: Nossos leitores pediram várias vezes para que fizéssemos um texto sobre os protestos e decidimos atende-los. Mas advertimos que ainda é muito cedo para entender completamente o que está acontecendo, porque a toda hora as coisas podem mudar – e têm de fato mudado. Por isso, as fontes que sempre estão no final do texto estão longe de contemplar todas as explicações possíveis sobre esse assunto. E também já pedimos desculpas se esse texto ficar rapidamente desatualizado. Aliás, pedimos que vocês, leitores, nos mandem outras análises que ajudem a explicar esse momento inédito que nosso país está vivendo.

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Agora eu quero ver você explicar: o que está acontecendo? Por que tanta gente foi à rua?
Você sempre quer me complicar, né? Olha, ainda é cedo para dizer exatamente o que está acontecendo. Muitos colunistas de jornal e TV acham que as pessoas não sabem por que estão protestando, dizem que é uma “insatisfação geral”, mas talvez não seja bem isso.

Como não? Tinha um monte de gente com bandeira do Brasil, cartaz contra a corrupção…
Sim, tinha mesmo. Ouviu-se xingamentos para todos, de Dilma a Neymar. Mas o fato é que os protestos todos começaram, principalmente em São Paulo, por causa do aumento na tarifa do transporte público.

Ah, mas essa é só uma causa! Olha só quanta gente foi para a rua!
Bom, vamos com calma. Muita gente esteve nas ruas durante esses dias, mas o Movimento Passe Livre está desde 6 de junho protestando contra o aumento (e ele existe desde 2005). Foi assim que a coisa começou. A maioria das pessoas só se juntou aos protestos depois que a polícia foi muito violenta com os manifestantes no dia 13 de junho (quinta-feira) em São Paulo e no sábado e domingo seguintes no Rio em Brasília. Foi depois disso que as multidões foram para a rua. 

Claro que tem causas claras! Contra a corrupção! Contra esse roubalheira toda!
Mas pense no seguinte: quem, em sã consciência, protestaria a favor da corrupção? E da roubalheira? É importante mostrar que não estamos satisfeitos, mas uma passeata “contra a corrupção” não cria pressão nos governos porque não tem uma demanda clara. É por isso que muitos acham importante apoiar a redução da tarifa.

Ih, já vi que você é do tal do MPL, não é?
E você sempre quer dizer que eu estou a mando de alguém… Não sou membro do MPL. Nunca fui. O que estou dizendo é: essa demanda que eles estão levando às ruas é algo que está criando um ponto de pressão. Criando essa pressão, eles fazem com o que os governos sejam obrigados a responder. Se você  pede um monte de coisas diferentes e genéricas em um protesto, na verdade, não está pedindo nada.

Tá, mas e o povo que está protestando contra a Copa?
Sim, esse é outro movimento interessante. Muito dinheiro foi gasto em obras que não ficaram muito boas e isso deve ter incomodado as pessoas, que acham que o dinheiro podia ter ido para a educação e a  saúde.

Mas por que de repente tanta gente resolveu ir para a rua? Fazia muito tempo que isso não acontecia…
Isso é verdade. Tem algumas pessoas, como o filósofo José Arthur Gianotti (veja o link para o texto dele lá embaixo), que acham que pode ser porque as pessoas ficaram irritadas com o fato de que os condenados no caso do mensalão ainda não terem ido parar na cadeia. Outro problema seria que os partidos de hoje estão mais preocupados em fazer acordos entre si do que ouvir a população.

Essa é a nossa “Primavera Brasileira”?
Bom, a coisa começou no outono, né? Agora é inverno! Não sei se esse termo se aplica. Em primeiro lugar, o Brasil é uma democracia, ao contrário dos países da tal “Primavera Árabe”. Lá, eles ajudaram a tirar ditadores do poder e começar a caminhar para instalar uma democracia.

Mas eles não estavam usando as redes sociais também?
Sim, claro. Um ponto em comum é esse: a organização através da internet, sem precisar de líderes específicos. Além disso, essas pessoas, na maioria jovens, não se identificam com os políticos que estão no poder – e nem com os que querem chegar ao poder.

Olha, “Me Explica?”, dessa vez você não está explicando nada! Me diz de uma vez, vai: É revolução isso? A gente corre o risco de virar ditadura de novo?
Quanta hostilidade! Ainda é muito cedo para avaliar qualquer coisa. O que sabemos é: tem bastante gente insatisfeita com a política, com os serviços públicos e com os gastos na Copa do Mundo. Muito mais do que qualquer um esperava, especialmente os governos estaduais e o federal.

Nossa, mas eu vejo gente dizendo isso no Facebook o tempo todo.
É, as pessoas estão com medo disso porque, de repente, as passeatas começaram a ser tomadas por pessoas que dizem querem o fim dos partidos políticos e o impeachment da presidenta Dilma. Teve até gente de partido que apanhou na avenida Paulista na última quinta. Risco de golpe? Muito improvável e explico o porquê: por enquanto, tudo o que está acontecendo respeita a democracia. Sim, tem alguns casos de pessoas agindo de maneira anti-democrática, mas não tem sido a regra.

Saiba mais:
– (Estadão) Texto de José Arthur Gianotti
(Vídeo) Debate no Instituto de Estudos Avançados da USP: “O que está acontecendo?”
– (Em inglês) Reuters: “O despertar da classe média mundial”
– (Folha) “Dois em cada três paulistanos acham que os protestos devem continuar”
(Carta Capital) Coluna do deputado Jean Wyllys