(Foto: TED EYTAN/FLICKR/CREATIVE COMMONS)

Coluna publicada no site da Galileu no dia 13/12/2013.

Você já viu por aí centenas (milhares, talvez?) de posts louvando o ex-presidente da África do Sul e unanimidade mundial Nelson Mandela (1918-2013). Que ele foi importante para o fim do apartheid e o primeiro presidente negro de seu país, você também já cansou de ouvir.

Não que essas coisas sejam desimportantes, mas existem detalhes menos comentados da vida de Mandela que ajudam a jogar na luz no tipo de liderança o “Madiba” criou. Por exemplo, muito se fala dos 27 anos passados em Robben Island – e de sua disposição em negociar e dialogar com todos após sua saída, mesmo aqueles que o perseguiram.

Pouco se fala do porquê Mandela ter passado tanto tempo na prisão. Claro, o regime do apartheid não era exatamente democrático. Além de ser opositor da política de segregação racial, Madiba era membro do Congresso Nacional Africano, uma organização política (e hoje o principal partido sul-africano) que era considerada ilegal. Impedida de participar da vida política da África do Sul, a organização usou da violência para causar impacto. Mandela foi um dos fundadores do Umkhonto we Sizwe (Lança da Nação), braço armado do CNA, o que levou o governo a qualificá-lo como terrorista. Até bem pouco tempo atrás, aliás, o nome de Mandela estava numa lista de “terroristas” dos Estados Unidos.

“Ele  que renuncie à violência. Ele que desmonte o apartheid (…) Eu não posso e não vou me comprometer com ele quando eu e você, o povo, não somos livres”
Nelson Mandela, ao recusar a proposta de abrir mão da luta para ser solto da prisão

E se o tempo no cárcere criou a tolerância tão exaltada em Nelson Mandela, disposto a perdoar até seu carcereiro quando foi solto em 1990, é preciso lembrar que ainda prisioneiro, o grande líder falou uma última vez sobre o uso da violência. Em 1985, o então presidente P. W. Botha disse que libertaria Madiba da prisão se ele renunciasse ao uso da violência. A resposta foi clara e firme: “Ele  que renuncie à violência. Ele que desmonte o apartheid (…) Eu não posso e não vou me comprometer com ele quando eu e você, o povo, não somos livres”, declarou Mandela, usando a filha como porta-voz num estádio em Soweto.

Além desse, outros momentos do líder do CNA são menos lembrados, como seu apoio à formação de um estado Palestino, sua amizade com ex-ditador da Líbia Muamar Gaddafi, a proximidade com os irmãos Castro, de Cuba, e as críticas aos Estados Unidos. Claro que esses fatos não diminuem os feitos de Mandela, um político capaz de unir diferentes facções e reconstruir um país dividido de maneira pacífica e democrática. Mas também é preciso levar em conta toda a trajetória de um personagem para compreendê-lo verdadeiramente.