Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil (16/01/2017)

Toda hora tem notícia sobre alguma rebelião ou conflito nos presídios. O que está acontecendo?

Há muito tempo, facções (grupos) criminosos disputam o poder dentro dos presídios. É o que está acontecendo agora. A briga principal é entre o PCC (Primeiro Comando da Capital, de São Paulo) e o Comando Vermelho, do Rio. No Norte do país, o CV é representado por um outro grupo, chamado FDN (Família do Norte). No Nordeste, o Sindicato do Crime age em nome do CV.

Como assim, disputando poder?

As facções brigam para ter o maior número de “afiliados” possível. Em troca, os presos ganham proteção.

Mas o presídio não deveria ser um lugar onde as pessoas pagam pelos crimes? Como pode ter esse monte de grupo?

Verdade, você tem razão. A realidade é que os presídios são “esquecidos” pelo Estado. Em vez de tentar reabilitar essas pessoas, os governos acabam deixando os detentos esquecidos lá dentro, sem muita perspectiva. Foi por isso que esses grupos, em especial o PCC, cresceram e se espalharam.

Como o PCC surgiu?

Segundo a antropóloga Karina Biondi, entrevistada por e-mail pelo Me Explica?, “o PCC surgiu em 1993, como uma reação dos presos ao que eles julgavam ‘abusos’ do Estado. A referência ao Massacre do Carandiru [que aconteceu em 1992] é constante e exemplar na proposta do PCC: a necessidade dos presos se unirem para enfrentar um inimigo em comum, o sistema (carcerário, jurídico, policial) e, com isso, evitar que esses abusos ocorram”.

Por que ele atua na prisão? Não é melhor atuar nas ruas?

“A prisão é o lugar que reúne justamente as pessoas que estão submetidas ao sistema ao qual o PCC reage”, diz a antropóloga Karina Biondi. “É onde o PCC é mais intenso. Mas sua atuação não se restringe às prisões. Ele está presente em grande parte do Estado de São Paulo”. 

Quando os jornais dizem que os presos são “membros” do PCC, o que isso quer dizer? Eles têm que pagar mensalidade ou coisa assim?

“Para ser membro do PCC, a pessoa precisa ser convidada”, explica Karina Biondi. “Ela, então, é batizada e passa a assumir um ‘compromisso com o crime’. Um desses compromissos é o pagamento da mensalidade, ou ‘caixinha’, como dizem. Mas eu não sei se os jornais têm clareza sobre quem são os membros. Empiricamente [ou seja, apenas observando], é difícil distinguir quem é membro e quem não é, pois uma das características do PCC é a discrição. Mesmo nas regiões onde o PCC atua, vejo que as pessoas têm dificuldade de fazer essa distinção”. 

Por que o PCC está brigando com outros grupos nos presídios do Norte e do Nordeste?

“Difícil saber de longe, sem que eu estivesse fazendo pesquisa lá, vivendo o cotidiano daquelas pessoas. Isso porque, geralmente, as situações são definidas caso a caso. A ausência de prescrições [regras] nesse ‘mundo do crime’ dificulta qualquer tipo de diagnóstico, de avaliação. Mas pelo que conheço de PCC, a ofensiva dos presos da facção Família do Norte, no presídio de Manaus, pode ter desencadeado disposições em torno do desejo de vingança”, diz a antropóloga Karina Biondi. 

É possível acabar com o PCC?

“Primeiro temos que considerar que o PCC não se restringe a um grupo de pessoas reunidas para a prática de crimes. Isso quer dizer que acabar com o PCC seria, na verdade, extinguir um método para a condução da vida. Ainda assim, o fim do PCC não significa o fim do ‘mundo do crime’ ou a extinção das atividades criminosas e tampouco das associações entre pessoas visando essas atividades”, afirma Karina Biondi.

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