Li hoje sobre o caso desse museu do sul. O que aconteceu?

O Santander Cultural, um espaço cultural em Porto Alegre (RS), resolveu encerrar a exposição Queermuseu por causa de protestos de pessoas ligadas ao grupo político Movimento Brasil Livre (MBL).

Como foram esses protestos?

Os integrantes do MBL postaram dezenas de comentários na página do Santander Cultural no Facebook. Eles acusaram a mostra de promover a pedofilia, a zoofilia e de ofender o cristianismo.

O que o Santander Cultural fez?

A instituição decidiu encerrar a exposição, dizendo que não queria ofender a ninguém.

Bom, então está certo, não? Não pode ofender ninguém, poxa!

Diversos artistas discordam. Segundo eles, a arte é um espaço em que se discute questões da sociedade. As obras que seriam supostamente ofensivas estão promovendo discussões, não promovendo pontos de vista.

Mas a tal exposição não tinha imagens de sexo?

Sim, tinha. Mas a arte lida com essas questões há centenas de anos. Não é de hoje que cenas consideradas imorais aparecem em pinturas, esculturas e outras manifestações.

E a pintura que tinha Jesus? Isso está errado, não?

Vivemos numa sociedade em existe liberdade de expressão, desde que não seja discriminatória, caluniosa e ofensiva.

Ué, mas e se eu me ofendo com uma imagem de Jesus com a qual não concordo?

Você tem direito de não gostar. Mas exigir que ela não possa existir é violar a liberdade de expressão de um artista.

Mas eu ouvi dizer que essa exposição era só provocação, não tinha nada de arte ali. É verdade?

Não. Vários artistas brasileiros importantes tinham obras no Queermuseum, como Adriana Varejão, Lygia Clark, Leonílson e Cândido Portinari.

Não entendi ainda porque os artistas ficaram bravos com os protestos. Se eu não gosto de alguma coisa, posso exigir que o centro cultural feche a exposição, não é?

A atitude do banco pode ser considerada censura porque não se pode exigir que uma exposição, um livro, um filme, deixe de ser publicado porque um grupo da sociedade não gosta dele. Seguindo esse raciocínio, não vai haver mais liberdade para fazer críticas e reflexões.  E, apesar de algumas imagens retratarem cenas de sexo, por exemplo, as obras não estavam sendo exibidas no horário nobre da televisão sem critério, mas sim em um espaço dedicado à arte.

Olha, preciso te dizer: estou achando que vocês do Me Explica estão dando opinião demais neste texto! Estou me sentindo ofendido.

Você tem todo o direito. Sim, nós temos nossa opinião, isso é verdade. Mas estamos apenas tentando explicar os pontos de vista a respeito desse assunto. Nós não pretendemos dizer qual é a verdade final. Apenas tentamos ajudar os leitores a desembaralhar os assuntos. Mas sempre queremos que vocês, leitores, construam suas próprias opiniões.

Tá bom, entendi. Mas e a coisa da Lei Rouanet? Isso não é uma boa justificativa para fechar essa exposição?

A Lei Rouanet foi feita para incentivar a arte. E, como eu disse, a arte trata de questões incômodas muita vezes. O fato de a exposição ter captado dinheiro via Lei Rouanet não deveria servir de justificativa, já que não se pode discriminar qual tipo de arte poderia ou não receber financiamento. Mas preciso deixar claro (de novo): quando um projeto está inscrito na Lei Rouanet não significa que o governo está dando dinheiro diretamente. Quer dizer que os produtores do projeto podem pedir doações a empresas. Essas empresas receberão seu dinheiro de volta na forma de desconto nos impostos. Nós já fizemos um texto sobre a Lei Rouanet: http://meexplica.com/2016/04/entenda-o-que-e-a-lei-rouanet/.

Saiba mais:

El País

G1