por Marcelo Soares e Diogo Rodriguez

Ouço que jornalistas devem ser imparciais, mas também vejo muitos jornalistas dando opinião. Jornalista pode opinar?

No cinema existem gêneros de ação, documentário e romance; na música, existe rock, samba e jazz. No jornalismo, também existem diferentes gêneros. Apenas dois dos gêneros do jornalismo pressupõem algum grau de imparcialidade: a notícia, que relata fatos da atualidade, e a reportagem, que aprofunda assuntos de interesse geral. Imparcialidade em jornalismo significa evitar que uma versão só, não raro a versão oficial, seja a única disponível.

Além desses gêneros, existem diversos gêneros opinativos:

  • Coluna: opinião assinada de jornalista ou especialista com espaço fixo; pode incluir apuração como na reportagem, mas nem sempre
  • Artigo (“op-ed”, em inglês): opinião assinada de jornalista ou especialista convidado
  • Editorial: texto que representa a opinião da empresa jornalística sobre o assunto do dia; geralmente não é assinado, mas é da responsabilidade da direção da empresa
  • Crônica: texto leve, muitas vezes humorístico, refletindo o ponto de vista pessoal do autor sobre o tema do dia

Se o jornalismo feito por repórteres deve ser imparcial, porque só vejo críticas ao governo?

Boa parte das críticas que você lê vem de artigos opinativos. Mas também há reportagens que expõem falhas do governo.

Como dito antes, imparcialidade em jornalismo significa evitar que uma versão só, não raro a versão oficial, seja a única disponível. A versão oficial de qualquer governo, empresa ou pessoa sempre buscará mostrá-la como infalível. O mundo infelizmente não é assim. Para contar vantagem das ações de um governo, existem a propaganda, a assessoria de imprensa e, atualmente, até robôs em redes sociais.

Uma das principais definições do que é notícia é: notícia é o que foge do esperado. Dizer que o sol nasceu hoje não é notícia, porque o sol nasce todo dia. Quando o dia virou noite em São Paulo às três da tarde, em 19 de agosto, isso era claramente notícia. O que se espera de uma autoridade é que aja com honestidade. Quando comete atos desonestos, como contratar pessoas que não trabalham no cargo para o qual foram contratadas, isso é notícia.

Então, muitas vezes o noticiário acaba realmente tendo um tom negativo.

Mas por que então o jornalismo só coloca defeito no governo atual e não fala da corrupção dos outros governos?

Não é de hoje que a imprensa critica o governo. Essa é parte do seu papel mais nobre numa democracia: fazer crítica honesta aos governos enquanto eles acontecem.

A memória do brasileiro costuma ser curta, mas todos os governos dos últimos anos achavam que a imprensa só colocava defeito no trabalho deles. Vamos pular a ditadura militar, que censurava e eventualmente matava jornalistas, diretamente para o período democrático.

Quando Tancredo Neves estava à beira da morte no hospital e a imprensa publicou detalhes de sua doença, foi acusada de “roubar a esperança” do povo. O governo Sarney foi coberto de maneira bastante crítica, especialmente depois do fracasso do plano Cruzado. Fernando Collor de Mello mandou a Polícia Federal intimidar a Folha de S.Paulo logo no início do seu governo. Itamar Franco apareceu em capas de revista abraçado no carnaval com uma modelo que esqueceu de vestir a roupa de baixo. Os diários da presidência de Fernando Henrique Cardoso, publicados quase integralmente em livro, dedicam parágrafos e mais parágrafos à crítica da mídia: o volume 3, que pega o período em que seu governo passou por uma sequência de escândalos, contabiliza 52 menções a “O Estado de S.Paulo”, 71 à “Folha de S.Paulo” e 25 à revista “Veja”, apenas para mencionar três publicações que fizeram reportagens bastante críticas em 1999/2000. No governo Lula, blogueiros alinhados ao governo apelidaram a mídia de “Partido da Imprensa Golpista”. Apoiadores de Dilma Rousseff culpam a imprensa pelo seu impeachment. Michel Temer foi acusado pela TV Globo de apoiar o pagamento de propina pelo empresário Joesley Batista ao deputado Eduardo Cunha.

Como faço para saber o que é confiável ou não?

Essa é uma questão muito difícil. Daria para escrever um livro a respeito do assunto. De uma maneira geral, tendem a ser mais confiáveis empresas que contratam profissionais dedicados a apurar informações, os repórteres. Boa parte das empresas mais tradicionais têm essa característica, mas existem também novas iniciativas criadas por jornalistas sérios que seguem os princípios básicos do jornalismo e dão boas informações. Todas elas estão expostas a errar, mas as mais honestas reconhecem e corrigem os erros que tenham por equívoco publicado.

Mas também vemos hoje sites e perfis de redes sociais que publicam quase que apenas mentiras e distorções. Com tanta informação circulando, a gente fica até perdido.

A dica geral que podemos dar é a seguinte: tente exercitar o seu senso crítico e verificar informações em primeira mão, na medida do possível. Quanto mais você conhecer a respeito de um assunto, menos difícil é avaliar o que é confiável.

Se o jornalista recebe informação obtida de maneira ilegal ele pode publicar?

Se a informação for de interesse público, ele não só pode como deve. Mesmo que tenha sido obtida de maneira ilegal. Que fique claro: o próprio jornalista não pode cometer um crime para conseguir a informação (como roubar algo ou invadir o computador de alguém). Mas se receber esse material de alguém que cometeu o crime, pode publicar.

O que é interesse público?

Interesse público é tudo aquilo que diz respeito ao dinheiro público, ao que autoridades (políticos, juízes, procuradores, funcionários públicos em geral) fazem quando estão desempenhando suas funções–e que não seja da vida particular. Por exemplo: no Brasil, muito raramente se considera de interesse público saber se alguém está traindo a esposa ou esposo. Em outros países, é mais comum que isso seja notícia. Mas, em qualquer lugar, é de total interesse público se uma autoridade concede um cargo de responsabilidade a um parente, especialmente se não qualificado.

No caso das mensagens da Lava Jato, porque os jornalistas não deram o material para a polícia?

Porque o jornalista tem direito (garantido pela Constituição brasileira em seu quinto artigo, que elenca os direitos garantidos aos brasileiros) a não revelar a fonte que confiou neles a ninguém que possa prejudicá-las, seja a polícia, governo ou justiça. Esse direito não é do jornalista, é do cidadão: o brasileiro tem o direito de saber o que é feito por seus representantes. O jornalista tem a obrigação de revelar a nós, os cidadãos, informações que sejam de interesse de toda a sociedade. No caso da chamada Vaza Jato, a função do jornalismo é revelar que a força-tarefa da Lava Jato cometeu irregularidades em suas ações e investigações. É importante que os jornalistas não sejam obrigados a revelar suas fontes.\

Por que os jornalistas podem proteger suas fontes?

Por regra, as informações sobre as atividades do poder público devem ser públicas. O Brasil tem leis que obrigam o poder público a divulgar dados de gastos, de salários, contratações e outros. Muitos atos oficiais precisam ser publicados no Diário Oficial. Pela lei de acesso a informações públicas, qualquer cidadão pode requisitar dados do seu interesse. Mas nem sempre essa informação conta a história inteira.

Quando o sistema falha, pessoas bem informadas e bem posicionadas podem querer passar informações ao conhecimento público por meio de jornalistas. Só que, se seus nomes aparecerem, elas podem sofrer consequências por causa disso. Em alguns casos, essa pessoa bem informada obteve aquela informação por meio do seu trabalho, e vazar isso pode ser considerado um crime de responsabilidade. Em outras, ela pode ter obtido as informações de maneira ilegal. É melhor que os cidadãos saibam daquilo que pessoas com poder buscam esconder.

Além disso, quem está no poder frequentemente usa as leis para esconder dados desfavoráveis e com isso se proteger. Por isso, é importante que os jornalistas não sejam obrigados a revelar suas fontes.

Mas isso não é proteger criminosos?

Não. Os jornalistas não revelam suas fontes, mas a polícia e as autoridades podem investigar o quanto quiserem. Por exemplo, Chelsea Manning, que foi a fonte dos vazamentos do Wikileaks, está na prisão nos EUA. Aqui no Brasil, o grupo que supostamente hackeou os procuradores da Lava Jato está atualmente preso preventivamente. Uma coisa não impede a outra; o que a polícia não pode fazer é exigir que os jornalistas colaborem revelando suas fontes.

Qual é a diferença entre um hacker e um jornalista?

A diferença é que o jornalista não pode cometer crimes para obter informação e tem critérios para divulgar as informações. O jornalista apenas vai publicar o que for de interesse público, como já expliquei antes.