Ir ao cinema é muito bom, mas confesso que estou com preguiça de ir ver ‘A Odisseia’, do Chrisopher Nolan. Vai chegar o sábado e, provavelmente, a preguiça vai vencer. Vou acabar colocando ‘Star Wars’ pra ver pela enésima vez. Luke perde o pai (ou acha que perdeu), sai de casa, junta uma equipe de desajustados, quase morre numa cela da Estrela da Morte e volta de lá com uma habilidade nova e um problema resolvido.
E se eu te disser que, de uma certa maneira, fazer isso é trocar seis por meia dúzia? Que ‘Star Wars’, criado no século 20, e ‘A Odisseia’, que tem mais de 2.700 anos, têm muito em comum?
Segundo a Encyclopaedia Britannica, a gente ainda está falando desse texto grego clássico porque ele ainda descreve muito bem o triunfo e a frustração que a humanidade vive em suas aventuras e desventuras. E olha que ele foi feito pra ser recitado em voz alta, não lido. Só virou livro depois de circular de boca em boca por gerações.
Quem explicou isso direitinho foi um professor chamado Joseph Campbell. Ele passou décadas comparando mitologias que não tinham contato histórico nenhum entre si, como a da Grécia de Ulisses, a do Egito de Osíris, a do Prometeu que rouba fogo dos deuses, a do Buda debaixo da árvore, a do Jesus do deserto — e percebeu que todas contavam a mesma história com roupas diferentes.
Batizou isso de monomito, num livro de 1949 chamado O Herói de Mil Faces: o herói vive num mundo comum, recebe um chamado, atravessa um limiar para o desconhecido, enfrenta provações com ajuda de aliados, passa por uma crise que funciona como morte simbólica, ganha alguma coisa com isso e volta para casa transformado.
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Mas isso não é papo de acadêmico? A Odisseia é mesmo tão influente?

Segundo o Pacifica Graduate Institute, instituição que guarda hoje o arquivo pessoal de Campbell, George Lucas já tinha lido O Herói de Mil Faces enquanto escrevia o primeiro Star Wars, nos anos setenta, antes mesmo de conhecer Campbell pessoalmente. Os dois só se encontraram em 1983, numa palestra em São Francisco. Campbell nem fazia ideia do tamanho do fenômeno que tinha ajudado a inspirar sem saber.
Lucas convidou o professor pra ver a trilogia inteira num único dia, numa sala de projeção do Skywalker Ranch. A reação de Campbell, registrada depois no livro The Hero’s Journey, ele viu ali as próprias ideias, traduzidas para o problema moderno do homem contra a máquina. Dois anos depois, numa cerimônia de premiação, Lucas disse, em público, que se não tivesse encontrado a obra de Campbell, talvez ainda estivesse escrevendo Star Wars até hoje. O site oficial da franquia mantém uma série documentando o encontro.
E a coisa não parou por aí. O roteirista Christopher Vogler pegou o monomito de Campbell e transformou num memorando interno para a Disney chamado A Jornada do Escritor, um manual prático de como aplicar a estrutura em roteiro. O documento circulou dentro do estúdio e ajudou a moldar filmes como Mulan e A Pequena Sereia. Uma descoberta sobre mitologia grega virou, décadas depois, apostila de curso de roteiro.
Só Star Wars foi influenciado pela Odisseia?
A própria Britannica lista, no verbete da Odisseia, três heranças diretas: Ulisses, de James Joyce, que espreme os vinte anos de viagem de Odisseu num único dia em Dublin; A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood, contada pela perspectiva de quem ficou em casa esperando; e E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, dos irmãos Coen. Esse último é o meu favorito, porque não deixa margem para a dúvida: os créditos oficiais do filme atribuem o roteiro a “Homer (epic poem ‘The Odyssey’)”. Um estúdio de Hollywood decidiu, formalmente, dividir crédito de roteiro com um grego morto há quase três milênios.
E essa acima está bem curta. Em 1911 já existia um filme mudo baseado na Odisseia. Em 1954, Kirk Douglas viveu Ulisses numa versão que ainda passa em maratona de canal de TV a cabo. A Itália fez uma minissérie em 1968 considerada uma das adaptações mais fiéis que existem. Em 1981 virou desenho animado franco-japonês: Ulysses 31 trocou o barco por nave espacial e os deuses por robôs, e mesmo assim manteve o esqueleto intacto. Percy Jackson reescreveu a mitologia grega inteira pra adolescentes, Scorsese fez de Depois de Horas uma odisseia noturna dentro de Manhattan, e em 2004, sem ironia nenhuma, Bob Esponja e Patrick embarcaram numa odisseia para salvar o Sr. Sirigueijo. Em 2024, O Retorno colocou Ralph Fiennes para viver o momento em que Ulisses chega em casa e não é reconhecido por ninguém.

Como a palavra odisseia entrou no vocabulário da cultura popular
Ela entrou no dicionário — em português, inglês, espanhol, francês, praticamente qualquer idioma ocidental. Toda vez que alguém diz que teve “uma verdadeira odisseia” pra chegar no trabalho, tá citando Homero sem saber.
Os pesquisadores que tentam explicar por que essa história nunca sai de moda chegam a uma resposta meio óbvia quando você para para pensar. A questão não é o Ulisses em si. Mas sim, a experiência de estar vivo num mundo que não coopera com seus planos. Todo mundo tem uma Ítaca, algum lugar, alguma coisa, uma pessoa, uma versão de si mesmo que está tentando alcançar, e no caminho sempre aparece um Ciclope, uma Sereia, uma Calipso disposta a te segurar numa ilha confortável demais para sempre. Campbell resumiu isso numa frase só: o herói vai embora pra descobrir alguma coisa, e o que ele descobre é que estava em casa o tempo inteiro.
Christopher Nolan decidiu ser mais um dos contadores de história a reverenciar essa obra clássica. Duvido que ele consiga superar a versão do Bob Esponja. Veremos.

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